Batman – Cacofonia

Publicado: 28 de maio de 2014 em Quadrinhos
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Batman-Cacofonia

Autores: Kevin Smith (roteiro) e Walter Flanagan (desenhos)
O que é: História em Quadrinhos / Edição Especial
Editora: Panini Comics
Ano: 2009
Onde Encontrar: em sebos ou comic shops

Cinema é Arte? Pode ser Arte quando o resolve ser, mas na maior parte do tempo não passa de diversão descompromissada. Da mesma maneira eu vejo a música. Em ambos os casos o problema é que elas são vistas somente como Arte e os críticos esquecem que nem sempre o público quer ver algo profundo e marcante que vai mudar suas vidas para todo o sempre.

Muitas vezes o que queremos é pura e simplesmente passar alguns momentos de diversão alienada. E não há nenhum mal nisso. Só é problema quando alguém que faz trabalhos para diversão acaba confundindo sua produção com algo além do que ela é (alguém citou Avatar ou a maioria dos acústicos da MTV?). Longe de mim querer definir o que é Arte e o que não é, mas acredito que vocês pegaram a linha do meu raciocínio.

Já nas Histórias em Quadrinhos o cenário é bem diferente. HQs são vistas em sua grande maioria como diversão e seus artistas lutam para mostrar que podem ir além da sua proposta inicial. Obras como Sandman, Watchmen, Gen Pés Descalços, Asterios Polyp e Jimmy Corrigan nos surpreenderam em termos de temática, roteiro e desenho. HQs já tem um espaço de destaque em grandes livrarias.

Mas, ainda assim, quando pensamos em “gibi”, nos vem à mente garotos lendo alguma história sobre alguém vestindo cueca por cima da calça e socando bandidos. Daí parece haver entre os críticos de quadrinhos uma obrigação de que as histórias feitas atualmente não devam ser nada mais nada menos do que verdadeiras obras de arte e se esquecem de quem gosta somente de passar alguns minutos se divertindo. Batman – Cacofonia: é um bom exemplo de uma história despretensiosa e divertida que foi tachada de ruim para baixo pelos críticos.

O roteiro da história é de autoria de Kevin Smith. Ele se consagrou como roteirista e diretor, mas ainda é considerado um diretor “underground” e seus trabalhos estão longe de serem considerados Arte. Tem um público cativo entre os nerds, mas poucos o conhecem fora desse nicho. O forte de suas obras são os diálogos diretos, com várias referências à cultura pop,  gerando uma identificação espontânea entre as personagens em suas obras e seu público alvo.

Kevin Smith

Kevin Smith

O editor-chefe da Marvel ComicsJoe Quesada percebeu essa identificação e convidou Smith para roteirizar as histórias do Demolidor. O arco ficou conhecido como Diabo da Guarda e foi sucesso de crítica e público. Smith era um fanboy que estava realizando o sonho de muitos iguais a ele. E tudo de sua que era apreciado de sua obra no cinema – bons diálogos, referências pops, personagens humanizados – estava presente nos seus roteiros, devidamente transportado para o universo dos heróis de HQs.

Depois dessa empreitada na Marvel, Smith foi brincar com os heróis da DC Comics e foi responsável pela ressurreição do Arqueiro Verde, numa série com desenhos de Phil Hester e que também sucesso de crítica e público. Smith não só trouxe o Arqueiro de volta como o colocou no primeiro escalão da editora, algo que não ocorria há muito tempo. Smith então deu um tempo nas HQs para se dedicar a seus projetos e voltou um bom tempo depois com a minissérie Batman – Cacofonia.

A obra é uma minissérie em 3 edições que traz de volta o vilão Onomatopéia, que apareceu pela primeira vez no arco de histórias O Som da Violência, na passagem de Smith pelo Arqueiro Verde. Onomatopéia é um assassino serial cujo modus-operandi é matar vigilantes urbanos sem super poderes com um tiro na testa. Ele depois guarda as máscaras de suas vítmas em um santuário secreto em sua casa, como se fossem troféus. Outra característica marcante dele é só se comunicar através de onomatopéias. Após uma tentativa frustrada de matar o Arqueiro Verde, o vilão havia sumido, mas surge em Gotham City e desta vez seu alvo é o Batman.

Para poder capturar Batman, Onomatopéia ajuda o Coringa a escapar do Asilo Arkham Para Criminosos Insanos. A idéia é usar o Coringa como isca, já que o Cavaleiro das Trevas vai fazer de tudo para colocar o Príncipe Palhaço do Crime atrás das grades. Mas o Coringa percebe que está sendo usado e Batman também percebe a artimanha do seu novo adversário, de maneira que tudo vira um complexo jogo onde todos os envolvidos usam todos. Paralelo a tudo isso ainda temos uma guerra de gangues entre o Coringa e Maxie Zeus.

Todos os elementos de uma boa história do Batman estão presentes: vilões pitorescos, boas cenas de luta, investigações e reviravoltas. E todos os elementos de uma boa história do Kevin Smith também estão lá. Então porque essa história é tão criticada?

Uma das maiores reclamações está na caracterização do Coringa. Alegam que ele foi mal-aproveitado, que foi tratado como um vilão de segunda ao invés do maior antagonista do Batman. Smith optou por uma abordagem mais burlesca do vilão, mais próxima da maneira que ele era retratado na Era de Prata. Era um Coringa mais palhaço, com humor ácido, trocadilhos infames e piadas sempre perigosas. Parece que depois de sua encarnação nos filmes do Nolan, o vilão tem a obrigação de ser retratado somente como um sociopata insano, e discordo. Aos que alegam que ele foi rebaixado, recomendo ler a história com mais atenção, em especial ao diálogo entre o Coringa e o Batman no capítulo final. É um daqueles momentos em que lembramos o tanto em que os dois se odeiam.

Outra crítica é ao desenhista da história. Walter Flanagan é um desenhista mediano que se não se destaca, também não faz feio. Consegue desenhar as cenas de ação e mostra bem as expressões que os diálogos de Smith. E considerando que é uma obra em que o forte é o roteiro, o desenho dá um suporte mais do que suficiente à história.

Onomatopeia

Onomatopeia

É nítido o quanto Smith se divertiu escrevendo esta minissérie e é isso que devemos fazer ao ler a obra. Não espere grandes reviravoltas, não espere uma saga que vai “mudar tudo para sempre”, não espere grandes reflexões sobre o combate o crime ou à loucura. Você nem precisa ter lidos anos da cronologia do Homem-Morcego pra entender a obra, é “pronta pra consumo”. E consumo imediato. É uma ótima cerveja, não um whisky. Leia, se divirta e depois empreste, guarde, doe e vá viver sua vida. Ou vá ler Promethea e aí sim sinta seu mundo virar de ponta-cabeça!

PS1: Essa resenha é em homenagem ao Maurício Muniz e ao Audaci Jr, que falaram tão mal da história no Twitter que me obrigaram a vir aqui defendê-la.

PS2: Engraçado que o Kevin Smith é um dos meus roteiristas/diretores favoritos e ele escreveu histórias do Demolidor, Arqueiro Verde e Batman, alguns dos meus heróis favoritos.

 

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comentários
  1. Quando eu li essa história pela primeira vez, fui crítico – estava puto com a atual fase do Morrisson no Batman e o meu ego a interpretou como uma “fraca versão de Smith sobre a ‘Piada Mortal’.”

    E não é – eu estava errado; muito errado. É uma boa história que merece ser relida, ainda mais por termos mais uma oportunidade de observar oponentes mortais num diálogo. E é claro que Smith conhece esses personagens a ponto de saber o que colocar na boca deles.

    Darei um jeito de relê-la;
    Valews, Alessio.

  2. Gustavo disse:

    Uma boa historia, mas claro que é arte. Tudo deve ser analisado como arte. Não consigo ler ou assistir nada se não for como arte. Agora, se é boa ou ruim, aí é outra história.

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