Bebendo com o Demônio

Publicado: 3 de junho de 2014 em Crônicas do Caostidiano
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vince ray

“Rápido garçom, me traga seu melhor whisky
Esse seu amigo aqui só tem mais meia hora
Até que diabo descubra que morri
E venha me levar embora”.
Matanza, “Wisky para um condenado”

Não adianta. Chegue sozinho em um balcão de bar ou padaria, peça sua bebida, a deguste na sua, sem falar com ninguém e logo será visto como um alcoólatra. Caso tenha a ousadia de sentar-se em uma mesa, pior ainda. Caso o garçom pergunte se está esperando alguém e disser que não, parecerá que acabou de confessar que gosta de transar com, sei lá, filhotes de panda.

Pessoas sozinhas em bares não são vistas com bons olhos. A impressão é os que chegam solitários tem o dever moral e cívico de se enturmar com as pessoas ao redor, mesmo que todos sejam totalmente estranhos. Como alguém que já esteve dos dois lados do balcão, pude observar isso por vários ângulos. Realmente existem aqueles que estão desesperados e usam o barman /garçom como psicólogo ou melhor amigo. Mas o sujeito está lá trabalhando, não pode dar exclusividade para nenhum cliente, então finge que ouve enquanto lava copos ou prepara alguns drinks (Mentira: gostosas dando bola tem exclusividade TOTAL e colegas de balcão até salvam a sua se for tiro certo).

Mesmo eu costumava estranhar pessoas bebendo sozinhas. Achava triste. Todos estavam ali rindo, falando alto, flertando, e lá tinha alguém com o copo na mão e perdido em seus próprios pensamentos. Minha vontade era chegar e chamar a pessoa para sentar com a gente. Nunca fiz isso, graças aos deuses.

Comecei a mudar meu pensamento em relação a isso vendo um episódio de Sex and the City, onde a protagonista, ao fim de um episódio em que se deu mal com um caso qualquer, resolveu curtir sua própria companhia bebendo vinho sozinha em um restaurante. Ela não parecia triste nem estar lamentando as perdas recentes. Havia pura e simplesmente reservado um momento para si própria. Achei aquilo incrível, poderoso, transformador.

Então passei a fazer isso sempre que havia tempo. Às vezes levava algo para ler, em outras ficava absorto em pensamentos, mas meu passatempo favorito era observar as pessoas ao meu redor. Uma pessoa sozinha em uma mesa bebendo fica invisível em cerca de 20 minutos (o que dificulta pedir mais bebidas) e todos em volta passam a agir como se ali estivesse uma mesa vazia. É algo bem divertido. A sinceridade das pessoas causa admiração ou repulsa, não há meio termo.

Claro que de vez em quando alguém resolve romper sua bolha e sentar na sua mesa. Quase sempre é um bêbado achando que vai filar algo de você. Mas, às vezes, é uma garota curiosa com aquela figura sozinha, escrevendo enquanto bebe. A cena deve despertar aquela tara que mulheres tem por artistas decadentes. E sempre vem a maldita pergunta: “Por que você está sozinho?”.

O deprimente é que as pessoas nunca aceitam uma resposta sincera a esta pergunta. Você não pode querer estar sozinho um pouco para pensar na vida ou só passando o tempo. Tem que haver algum motivo dramático, triste para ir sozinho beber? Eu sou obrigado a me enturmar e me divertir? E no livro de contos Um drink no bunker, de Ricardo Carlaccio, me trouxe a resposta mais linda de todas: “Estou bebendo com o Demônio”.

Agora, toda vez que me perguntam o que fui fazer no bar sem ninguém, esta é a minha resposta seca, sem nenhuma outra explicação. Quem já teve a felicidade de ler esse livro, entende perfeitamente. O resto fica perdido em conjunturas por aí. Estaria eu perdendo minha alma para bebida? Demônio seria o apelido de algum amigo meu habitué do bar? Estaria indo sozinho justamente para confrontar meus demônios internos em uma daquelas conversas “na lata” que só embriaguez proporciona? E se a graça de tudo era a aura de mistério que esta resposta proporcionava, por que raios estou fazendo um texto sobre isso?

Só sei que estou sozinho na minha casa e tenho uma garrafa de conhaque se esvaziando lentamente. Talvez eu tenha deixado de ir beber com o Demônio e ele passou a beber comigo…

(Publicado originalmente na Revista Entremundos)

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comentários
  1. Da próxima vez que for beber sozinho, dê um toque; conversas à três são mais frutíferas num bar.

  2. Alessio Esteves disse:

    Anotado!

  3. Fabio disse:

    Você tem esse livro Um drink no bunker?

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