Nerds e futebol: será que dá jogo?

Publicado: 18 de junho de 2014 em Opinião
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A Internet produziu alguns fenômenos notáveis. Um deles foi a ascensão da cultura nerd ao mainstream da cultura em geral. Não, ela não foi a única responsável, mas seu imenso poder de divulgação fez com que alguns aspectos saíssem daquele gueto e conquistassem o grande público. O maior exemplo disso pode ser visto em camisetas. São diversas estampas com temática nerd desfilando por aí (quem nunca viu alguém com uma do Lanterna Verde?) e as pessoas sabem o porquê de estar usando aquela peça de roupa. Mesmo que seja porque “gostou do desenho”.

Os nerds se esbaldaram com a Internet, seja porque a distância física de pessoas os fez perder parte da sua timidez, seja porque ali conseguiram encontrar pelo mundo todo pessoas com o mesmo gosto que eles. Mas aí pessoas diferentes e com gostos diferentes começaram a invadir este espaço, não falando necessariamente de RPG, Star Wars ou programação. E daí vem outro fenômeno da web, este vindo de tempos mais recentes, acompanhando o que as pessoas postam no Twitter, Facebook e afins: a reclamação generalizada.

O processo é sempre o mesmo. Uma galera começa a falar de alguma coisa. Uma outra galera começa a fazer piadas sobre. Já uma outra galera reclama de quem está falando disto. Por fim a primeira galera se junta com outra para reclamar de quem estava reclamando. Isso vale para QUALQUER assunto: de Literatura Russa ao programa “Mulheres Ricas”. E claro que com futebol isto não seria diferente.

Em dia de jogo, o Twitter vira uma enorme mesa de bar com acesso a todos os jogos que estão passando no momento. Antes do jogo, já temos torcedores empolgados comentando escalações e afins. Durante o jogo em si, análises e comentários em tempo real, dos mais frios aos mais exaltados, com direito a palavrões, gritos de gol e adversários se insultando. E assim que acaba, temos as tradicionais análises e a tiração de sarro de quem perdeu.

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Claro que quem odeia futebol abomina o Twitter nestas horas. E um belo dia a “Ala Nerd” da minha timeline resolveu criticar quem gostava de futebol. Não entendiam o fascínio das pessoas em ver 22 marmanjos correndo atrás de uma bola de couro. Não entendiam como as pessoas se envolviam com seus times a ponto de ficarem deprimidas, irritadas e outras emoções que o futebol traz. Não entendiam como se gastavam rios de dinheiro em ingressos e camisetas. Não viam graça em ficar tirando sarro um do outro por causa de times. E os nerds se achavam culturalmente melhores por não gostar de tudo isso.

Obviamente, eu discordei totalmente. Sim, eu discordei.

Porque muitas pessoas não entendem como podemos ter mais de 30 anos e ainda gostar do Homem-Aranha e do Batman, personagens que são originários de produtos infanto-juvenis. Não entendem como a morte de algum personagem pode mexer tanto conosco (a ponto de ficarmos possessos quando algum ressuscita). Dão risada quando ficamos babando para as mulheres bem desenhadas das HQs em geral. Acham estranho pagarmos mais de R$50,00 em um gibi. Não entendem porque DCnautas tiram sarro de Marvetes. Por fim, acham engraçado alguém pensar que é mais culto porque lê “historinhas” do Superman.

“Mas os fãs de HQ não brigam nas ruas pelos heróis”! Claro que não. Assim como os fãs de futebol. O que temos são fanáticos ou pessoas frustradas que precisam de qualquer desculpa para serem violentas. A que arrumaram foi o futebol. Todo mundo conhece alguém que é muito fã deste jogo. Pergunto: quantas vezes você soube que esta pessoa brigou por causa do time? E, se essa pessoa já brigou, é bem provável que ela brigue por qualquer motivo. Até pelo futebol, mas não só por ele. Dizer que o futebol estimula a violência é o mesmo que dizer que videogames, filmes e HQs o fazem, e sabemos que não.

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Por outro lado, os fãs de HQs aqui no Brasil estão bem longe do estereótipo norte-americano de “nerd babão”. Talvez até por nossa cultura ser um misto de diversas outras, conheço muitas pessoas totalmente nerds e que manjam muito de futebol. Eu mesmo, nas raras vezes que vejo um jogo do meu time, me porto como qualquer torcedor: estresso, grito, xingo, tiro sarro. Até sei a regra do impedimento!

Então não estranhem se aquele seu amigo que só fala de futebol for um baita fã do Alan Moore ou caso encontre aquele seu amigo nerd dentro de um bar gritando “CHUUUUUUPA” para colegas torcedores do time adversário.

PS: Texto dedicado a Alan LimaBianca SarmentoCassius MedauarSidney Gusman e JM Trevisan, os nerds mais boleiros que conheço!

(Publicado originalmente na Revista Entremundos)

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comentários
  1. Um texto sobre futebol que faz sentido pra mim. Por tampouco gostar deste esporte.

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