Marina Silva e a Manipulação da Ideologia – Parte II – O Lado Sombrio dos Verdes

Publicado: 20 de agosto de 2014 em Política
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(Você pode ler a primeira parte deste texto aqui)

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Conforme a palhaçada entre PT e PSDB crescia e ficava cada vez mais difícil diferenciar quem era acusador ou quem era acusado, o eleitorado começou a prestar atenção na terceira colocada nas pesquisas: Marina Silva pelo Partido Verde e com uma coligação sem força política expressiva.

O tempo seu de televisão era 1 minuto e pouco, mas como ela pontuava relativamente bem nas pesquisas e a mídia costuma cobrir pelo menos os três primeiros nomes, foi tendo seu espaço garantido. Com os debates, começou a crescer, mostrando-se inclusive mais agressiva do que o esperado de uma mulher com a sua aparência frágil. E foi martelando que essa eleição não era um plebiscito entre A e B, assim como ela era a candidata da continuidade e não do continuísmo. Parecia besteira semântica a princípio, mas o tempo provou que não.

A meu ver. o ponto de virada foi o debate on-line Folha/UOL. Este debate ocorreu em um dia de semana de manhã. Só quem tinha internet no trabalho ou quem estivesse em casa pode acompanhar o debate. Justamente esse povo que se acha super engajado, mas só acompanha o que rola de quatro em quatro anos (quando isso). No encerramento deste, Marina Silva, alfabetizada aos 16 anos, definiu-se como “um milagre da educação”. Aposto que tinha gente no meu Twitter chorando nessa hora.

E por que esse foi o ponto de virada?
Tanto Dilma quanto Serra possuem perfis e atuações extremamente gerenciais, administrativos. Era aquele discurso tecnocrata, apoiado em números e mais números. Faltava alguém que mostrasse que política também era ideologia, mas sem o radicalismo comunista de Plínio de Arruda Sampaio do PSOL. Aos pouco, Marina foi preenchendo essa lacuna, graças aos seguintes pontos:

– Ela defende a “causa ambiental”. Logo um monte de “artista engajado” começou a manifestar apoio a ela e seus fãs seguiram na onda;

– Ela é uma pobre que “deu certo” e brasileiro adora manifestar apoio a isso;

– Ela é evangélica e foi escolha natural de boa parte dessa religião em ascensão no país. Ainda mais com a campanha de denúncias de ateísmo contra Dilma e até de satanismo contra Michel Temer. Eu mesmo ouvi pessoalmente gente passando esse tipo de boato adiante acreditando que era verdade;

– Ela se apresentou como “terceira via”, mantra político-ideológico-mágico que agrada tanto a quem se diz de esquerda mas é contra radicalismo quanto aos de direita preocupados com o bem estar de todos.

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E com esse misto de esperança, frustração e ideologia, Marina foi aos poucos retirando os votos de Dilma e crescendo nas pesquisas, a ponto do convocar a chamada “Onda Verde”, conclamando todos a ajudarem a votar na única que de fato poderia derrotar a candidatura petista. Isso ficou muito claro em seu debate na Rede Globo, onde fez questão de apontar as igualdades entre Dilma e Serra e se mostrar como que era diferente daquilo. Tanto que foi responsável pelo único momento alto do debate, ao fazer Serra perder a linha no penúltimo bloco.

Nos últimos dias da campanha ela se colocou como realmente pronta para o 2° turno contra Dilma, a ponto de estar na frente do tucano em alguns estados. Porém a apuração acabou e tivemos Dilma em primeiro com 46,9%, Serra com 32,6% e Marina com 19,3%.  E sabem quem mais comemorou este resultado? Marina Silva.

Analisando somente os números, Marina foi a maior votação em uma terceira opção em muito tempo, superando recorde anterior de 17% Anthony Garotinho (outro evangélico) em 2002. Nunca antes na história desse país alguém chegou tão alto sem ir para o segundo turno. Considerando o tamanho da coligação e recursos da campanha, isso por si só é uma vitória. Mas a questão é que desde o começo Marina não estava jogando para ganhar e sim pavimentando seu nome para 2014. A ideia era fazer seu nome para concorrer pra valer na próxima eleição presidencial. E nisso ela foi muito além do esperado.

Com seus 19%, Marina agora é assediada por PT e PSDB, pois seu eleitorado pode sim vir a decidir a eleição, mas a candidata se colocou sistematicamente contra Serra e Dilma durante toda a campanha e acredito que não vá apoiar ninguém para manter seu “capital ético”. Já o Partido Verde está se alinhando discretamente ao PSDB (vide Rio de Janeiro) e deve manter a tendência. Assim o partido participa do jogo, recolhe espólios de um lado e mantém seu principal nome “limpo”. Dado a curta memória política dos brasileiros, é um plano perfeito.

E o que esperar de Marina Silva e do PV e 2014?

O que me preocupa é o discurso pseudo-liberal que ela tem e o número enorme de pessoas caindo nele. São homossexuais, pessoas pró-legalização de drogas ou aborto e até feministas votando em uma EVANGÉLICA? Como assim?

Não é questão de preconceito e sim de pragmatismo. Ela NUNCA vai ser a favor de coisas como direitos civis para casais homossexuais, aborto, drogas e medidas para um Estado mais laico. Aí ela diz que “pessoalmente é contra, mas que vai discutir o assunto”. AH, VÁ! Alguém aqui acha que em plebiscito para discutir aborto ou casamento civil ou legalização de drogas vai ter resultado pró essas medidas? Não conseguimos nem tornar crime o preconceito contra homossexuais!

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Marina sabe disso e ao se colocar de maneira clara que é contra, ganha a simpatia de todo mundo que é contra também. E quem é a favor dessas questões acaba achando lindo o fato dela ser sincera e mesmo assim, se eleita, chamar estas questões ao debate. Perdoem minha exaltação, mas DESDE QUANDO A MAIORIA DE POPULAÇÃO VOTA EM FAVOR DOS DIREITOS DE UMA MINORIA, PORRA?

Li diversas análises políticas sobre o resultado das eleições e possíveis cenários de alianças e afins e ninguém fala sobre uma “Onda Retrógrada” assolando o país. Para não dizerem que sou paranoico, alguns exemplos já estão surgindo. O PT já esta revendo a posição de Dilma sobre o aborto e saiu na Folha de São Paulo hoje que “foi um erro o partido dar ouvido à algumas feministas em suas fileiras”. O pastor Silas Malafaia colocou 600 outdoors de cunho homofóbico no Rio de Janeiro. Devem haver outros tantos por aí.

Muita gente fez brincando uma associação entre Plínio de Arruda Sampaio e o Imperador Palpatine devido à aparência similar de ambos. Vendo as jogadas políticas que Marina Silva / PV e os passos para trás que PT e PSDB estão dando para conquistar seu apoio,  começo a ouvir a trombetas do Apocalipse tocando os primeiros acordes da Marcha Imperial.

Marina Silva

(Publicado originalmente no NerDevils)

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