Transmetropolitan é aqui: Eleições Paulistanas

Publicado: 30 de setembro de 2014 em Política
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(Originalmente publicado em Contraversão em 30/10/2012)

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“Você quer saber sobre eleição. Eu tô aqui pra falar sobre eleição. Faz de conta que você tá em uma imensa boate subterrânea cheia de pecadores, putas, malucos e coisas inomináveis que estupram pit-bulls só de farra. E você não pode sair, não até que todo mundo vote no que vocês vão fazer esta noite. VOCÊ que pôr os pés pra cima e assistir a reprise do seu seriado favorito. ELES querem trepar com uma pessoa normal usando facas, revólveres e novos órgãos sexuais que você nem sabia que existiam. Então você vota na TV, e o resto, até onde você consegue enxergar, vota em te comer com canivetes. Isso é eleição. Bem-vindo.”

Spider Jerusalém, Transmetropolitan

No Fest Comix, a Panini lançou o terceiro volume encadernado da HQ, Transmetropolitan. O timming não poderia ser mais apropriado, já que o que move as histórias deste álbum são as eleições e, tanto aqui em São Paulo quando em todas cidades do país, acabamos de voltar às urnas para o segundo turno das eleições municipais.

Para quem não sabe do que se trata Transmetropolitan, um breve resumo: Spider Jerusalem é um jornalista que se isolou em uma montanha, incapaz de lidar com a fama e assédio de fãs. Mas, após cinco solitários e felizes anos, é obrigado a voltar para a cidade, pois só assim poderia escrever dois livros que deve para uma editora. Enquanto pensa em como fazer as publicações, volta a trabalhar em um grande jornal, onde destila sua amarga visão de mundo em uma coluna semanal intitulada “Eu Odeio Isso Aqui”.

Escrita por Warren Ellis e com desenhos de Darick Robertson, esta série se destaca pelo seu protagonista e pelo cenário onde ele atua. Spider Jerusalem odeia pessoas, está em um local cheio delas e tem que lidar com elas diariamente para poder trabalhar. Não disfarça isso nem um pouco e faz questão de ser o mais ofensivo possível. O jornalista sobrevive em um mundo futurista onde as pessoas não sabem (ou não fazem questão de saber) em que ano estão. Além disso, qualquer coisa é possível, desde realidade virtual até clones sem cérebro para fornecer carne humana para lanchonetes, passando por implantes bizarros, pombas com quatro asas e muito mais.

E o que isso tudo tem a ver com São Paulo?

Como dito lá em cima, o tema do terceiro volume de Transmetropolitan, intitulado O Ano do Bastardo, trata das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América futurista em que Spider Jerusalem vive. O motivo que fez ele se isolar de tudo foi uma cobertura das eleições ocorrida há 8 anos atrás, quando o candidato que ele apelidou de “A Besta”, ganhou. Agora, a Besta vai tentar um terceiro mandato e seu principal concorrente é Gary “Sorridente” Callahan, que ainda tem que enfrentar as primárias dentro do próprio partido.

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São dois candidatos que não estão preocupados com o povo e sim com a manutenção ou a conquista do poder. Para a Besta, “Minha função não é deixar tudo bonito, e nem fazer da vida uma bela experiência prazerosa… É manter a maioria da população do país viva. Se amanhã 51 por cento da população tiver o que comer e 49 não, já fiz a minha parte. Tal é o limite absoluto do que pode ser feito. Negar isso é estelionatário. Minha função é manter as coisas como estão. Deixar tudo na mesma. E eu cumpro. Cuido pro dinheiro entrar, forneço televisão e uns trocados de sobre e espaço pra uma bimbada ou duas. Você pode não gostar. Pode não achar que seja assim que um presidente deve se comportar. Mas, como você sabe, é foda pra caralho”.

O Sorridente. por sua vez, não parece uma boa alternativa. “Odeio gente acima de tudo. E vou ser presidente. Preciso mesmo é de um gato branco para afagar, estilo vilão de James Bond. Dá pra providenciar, Alan? Claro que sim. Você é meu coordenador político, pode arrumar QUALQUER coisa. Não é mesmo, Alan? Odeio todos vocês, sabia? Esta escória. Quero ser presidente porque os odeio e quero foder com vocês. Quero fazê-los calar a boca e se comportarem. Tocarem em silêncio suas vidinhas sem futuro. Quero ser presidente porque acho que tenho que ser”.

Chocante? Pura ficção? Troque Besta por Lula e Sorridente por Serra e continue dizendo que parece ficção. Desafio alguém a me apontar quem é o certo e quem é o errado nos discursos acima. Complicado e deprimente.

Muito se falou em polarização entre PT e PSDB aqui em São Paulo, mas a real é que foi uma briga entre Lula e Serra. O PT não queria Haddad e o PSDB não queria Serra, mas ambos os partidos tiveram suas bases tratoradas para quem estes dois pudessem mostrar que ainda mandam. E mostraram. Por que pensaram na melhor para São Paulo? Não. Mas porque Lula e Serra pura e simplesmente não conseguem ficar longe do poder. E não vão medir esforços para manter e ampliar o que já tem.

Após a eleição de Dilma Roussef, muitos decretaram a morte política de José Serra. Quando Lula empurrou Haddad, muitos disseram que um poste não ia ganhar. Pois bem, os dois conseguiram ir ao segundo turno, mesmo com um recorde de abstenções e votos brancos e nulos.

Com alianças bizarras e propagandas do mais baixo nível, Serra e Lula mostraram que não há limites para conseguir o que querem. Mas os números absolutos de votos também mostraram que os ventos da mudança que começaram a soprar em 2010 estão aumentando.

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O que concluir de tudo isso? Fica cada vez mais claro que a política se pauta pela manutenção do poder e não em governar para os cidadãos. E isto está ficando tão, mas tão escancarado que a população está percebendo. Marina Silva em 2010 e Celso Russomano este ano mostraram que tem muita gente disposta a mudar, mesmo que os critérios ainda não sejam os melhores.

Marina Silva mostrou que existe espaço para ideologia no campo político, e foi o que mais se aproximou de uma “terceira via”, fetiche de muitos desencantados com os políticos de sempre. Celso Russomanno esfregou na cara de políticos e marqueteiros que nem só de dinheiro e tempo na TV se faz uma campanha, além de colocar no debate que o cidadão também é um consumidor dos serviços públicos. Mas ambos estavam ligados demais à setores religiosos e não tinham propostas muito concretas, o que no final das contas afastou muitos eleitores. Porém, não podemos negar que apontaram alternativas que podem ser bem ou mal utilizadas.

Em São Paulo, a grande maioria dos candidatos a vereador que eram celebridades e puxadores de voto NÃO se elegeu. Era um ótimo jeito de partidos pequenos conquistarem diversas cadeiras na câmara do vereadores. Agora terão que arrumar um outro jeito. Sem contar que houve renovação de 40% nas cadeiras ocupadas. Mais sinais de que as coisas estão mudando.

Muito cedo para avaliar se as mudanças serão boas ou ruins, mas o próprio fato dos eleitores estarem buscando alternativas é um ótima sinal. Lula e Serra mostrarão as garras em 2014, que nós mostremos ainda mais as nossas!

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(Publicado originalmente no Contraversão)

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