(Originalmente publicado no Blog da Fnac em 28/03/2013)

1.  INTERNA – ENTREGA DO OSCAR – NOITE

Plano médio em Quentin Tarantino, de terno e gravata, segurando a estatueta. O diretor e roteirista norte-americano recebe o prêmio de “Melhor Roteiro Original” no Academy Awards (mais conhecido como “Oscar”) por Django Livre. O filme conta a história de um escravo liberto em busca da liberdade da sua esposa, escrava em uma plantação no sul dos EUA. Um dentista alemão o ajuda em sua jornada.

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NARRAÇÃO EM OFF

Houve um tempo em que era fácil definir a pessoa de Quentin Tarantino. Já foi chamado de um nerd que não sabia falar de outra coisa que não fosse cinema. Já foi taxado como um roteirista que não consegue fazer nada original, pois sua carreira foi construída em cima de copiar diálogos, cenas e até sequências inteiras de filmes obscuros que só ele havia visto. Já foi aclamado como a salvação do cinema após a ressaca da era Coppola-Spielberg-Lucas-Scorcese.

Acontece que o sujeito virou um adjetivo. Diga “Tarantino” para alguém e logo vem à mente diálogos rápidos e ácidos, armas, violência tão explícita que vira comédia, referências a filmes obscuros e trilhas sonoras inusitadas. Dito assim parece algo fácil de ser feito ou até mesmo imitado. Mas não é.

2. INTERNA – SALA DE CINEMA DO SUNDANCE FESTIVAL – NOITE

Exibição de Cães de Aluguel no Sundance Festival. Na tela, um sujeito bem vestido tortura, com uma navalha, um policial amarrado à uma cadeira. Diversos espectadores deixam a sala. A maioria vira o rosto.

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NARRAÇÃO EM OFF

Muitos dizem que todos os filmes de Tarantino são um só e cada um deles mostra apenas parte de um todo muito maior. Existem ligações óbvias entre Pulp Fiction – Tempos de Violência e Cães de Aluguel, por exemplo. Vincent Vega (John Travolta) está no primeiro e Vic Vega (Michael Madsen) no segundo. São irmãos e Tarantino nunca negou isso. Mas existem fios mais sutis formando a grande teia do universo tarantinesco.

Não é difícil encontrar nomes, armas, lugares e situações comuns nos filmes escritos, dirigidos e até mesmo produzidos pelo diretor. Parece obsessão? Paranoia? Clique aqui e veja que pode não ser…

3. INTERNA – VÍDEO ARCHIVES LOCADORA – TARDE

Fanático por cinema, com uma preferência doentia por Filmes B, Tarantino consegue emprego como balconista de uma videolocadora. Passa seus dias vendo e conversando sobre os mais diversos filmes.

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NARRAÇÃO EM OFF

Entre o trabalho e os estudos de atuação, vendeu dois roteiros: Amor à Queima-Roupa e Assassinos por Natureza. Com o dinheiro levantado, conseguiu fazer seu primeiro filme, aquele que definiria o “gênero tarantinesco”: Cães de Aluguel. Realizado com um orçamento considerado baixo, história mostra um bando de ladrões tentando descobrir o que deu errado em um assalto à uma joalheria. A narrativa não-linear, humanização dos personagens e violência realista fisgam público e crítica.

Pulp Fiction retoma elementos de Cães de Aluguel e os amplia, abordando não somente bandidos a mafiosos, mas todo submundo de Los Angeles. Arremessa o nome do diretor ao estrelato e ele recebe seu primeiro Oscar, “Melhor Roteiro Original”.

4. INTERNA – SUÍTE PRESIDENCIAL DE UM HOTEL – NOITE

Close em Tarantino bebendo uma taça de champagne Cristal.

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NARRAÇÃO EM OFF

Quentin Tarantino não é uma unanimidade. Four Rooms (Grande Hotel), filme feito a quatro mãos com Robert Rodriguez, Allison Anders e Alexandre Rockwell, foi considerado uma brincadeira que não deu certo. From Dusk Till Dawn (Um Drink no Inferno), com direção de Rodriguez, pode ser visto como um grande filme B. Jackie Brown, homenagem ao gênero blacksploitation, foi elogiado pela crítica, mas teve uma recepção morna do público. Então veio Kill Bill.

A saga da Noiva em busca de vingança após sobreviver a um massacre no próprio casamento trouxe uma mistura que só Tarantino poderia fazer: kung-fu e faroeste. Alguns taxaram que era uma obra somente para iniciados no mundo de Tarantino, uma grande piada interna entre o diretor e seus fãs.

Desenhos animados japoneses. Superman. Colegiais universitárias mortais. Duelos de espadas samurais. Bruce Lee. Um olho sendo esmagado por um pé. Armas de fogo dentro de caixas de cereais.

5. INTERNA – UMA MESA NO HAMBURGER HAMLET – DIA

Quentin Tarantino e Juliete Lewis conversando animadamente com um jornalista. Ele parece abatido, doente, mas mesmo assim não para de falar. Ela observa, faz alguns comentários e, sensualmente, sorri.

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NARRATIVA EM OFF

Com Bastardos Inglórios, ele realiza o sonho de fazer um filme ambientado na 2° Guerra. O resultado demonstra certo amadurecimento do diretor. Seu estilo característico ainda está lá; diálogos, trilha sonora, muito sangue. Tudo está no seu devido lugar. Mas fica a sensação de que estamos vendo um épico de guerra. Talvez porque o seja de fato.

6.  INTERNA – ENTREGA DO OSCAR – NOITE

Quentin Tarantino olhando para a estatueta em suas mãos e rindo, como se não acreditasse que tivesse sido escolhido. Engasga duas vezes antes de começar seus agradecimentos de fato.

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NARRATIVA EM OFF

O cineasta é conhecido como metralhadora verborrágica. Ao observá-lo olhando para o prêmio recém entregue e sem saber o que dizer, a imagem de “garoto rebelde” de Hollywood se desfaz. E vemos ali um apaixonado por cinema imensamente feliz por fazer o que gosta.

8. CORTE PARA TELA PRETA.

FIM

(Agradecimentos à Bianca pela ideia do título e estrutura deste texto)

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