(Publicado originalmente no Contraversão em 03/06/2013)

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Quem ouviu já o Contraudição sobre a minha não-tão-humilde pessoa já deve saber que sou fã de Legião Urbana. Não daqueles fãs que sabem todas as letras de todos os álbuns e tem todos os álbuns que saíram (inclusive os “the best of” e tal), mas do tipo que tem a banda como uma das favoritas para todo e eterno sempre.

Longe de mim intitular-me um “legionário”, mas as músicas deles estiveram presentes em momentos chaves da minha vida. Quando ainda era um adolescente romântico e idealista sonhava com um amor a lá “Eduardo e Mônica”. Descobri o Aborto Elétrico e suas músicas de revolta ao mesmo tempo em que conhecia a ideologia anarquista. Meu período gótico-depressivo foi embalado pelo álbum “A Tempestade”. Poderia fazer um texto só sobre isso.

Portanto, quando fiquei sabendo do filme Somos Tão Jovens, sobre a vida de Renato Russo pré-Legião Urbana, amei a ideia de imediato (sim, sim, sou a tradicional fã putinha que vibra tanto com a vida do ídolo quanto a obra). Os textos sobre a película indicavam que a história trataria da formação da “Tchurma”, o pessoal rocker de Brasília dos anos 80 que revelaria nomes como Plebe Rude, Capital Inicial e a própria Legião. Veríamos no filme um Renato Russo antes de ser a figura mítica e messiânica que tornou-se anos depois.

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Em tempos iconoclastas como os nossos é complicado referir-se à uma banda de rock nacional e ao seu vocalista como algo que foi (mentira, ainda é) foda para muita gente. Muitas pessoas não acreditam que exista rock no Brasil e menos ainda na Legião Urbana como uma banda que pertença ao gênero. São comuns acusações de “chupinhação de acordes”, de que “o Renato Russo era um ótimo poeta e um péssimo músico” ou de que “Legião é música para ficar deprimido”. Todas contém um fundo de verdade, mas nenhuma está 100% correta.

De qualquer maneira, para mim era dever moral e cívico assistir ao filme. Minha ideia foi juntar meus amigos que curtem a banda e todo mundo ir junto, mas tudo acabou dando errado e fomos eu e minha namorada. E gostamos do que vimos.

O filme é perfeito? Não. Demoramos um pouco para acostumar com o Renato Russo de Thiago Mendonça. Ele faz tão bem o jeito afetado do artista que parece que está “forçando a mão”, mas o líder da Legião era assim mesmo. A citação de diversos trechos das músicas do grupo em diálogos durante todo o longa não cria “easter-eggs” e soa óbvia. E, por ser um filme com uma trama fechada (e talvez por estarmos acostumados com o padrão “apresentação-problema-clímax-resolução”), ele acaba meio “do nada”. Só depois é que vamos entender o porquê do fim aparentemente abrupto.

Assim como no filme sobre a vida de Cazuza, o grande pecado em “Somos Tão Jovens”  é a maneira como a bissexualidade de Renato Russo é retratada. Enquanto sua relação com mulheres é abertamente exibida, com direito a beijos e amassos, seu único caso com um rapaz durante todo o filme é velado e sutil, rolando no máximo um abraço apertado. Triste, no mínimo.

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Porém, as qualidades da obra superam seus defeitos. Fica claro que todos ali eram filhinhos de papai. Sua revolta inicial contra o Sistema é fruto muito mais de tédio e de uma vontade de chocar os pais do que uma suposta politização. Se isso torna as atitudes deles mais ou menos legítimas, não cabe aqui esta discussão (ou cabe nos comentários?). A Ditadura Militar ainda vigorava na época e reflexos dela são sentidos em diversos momentos. A formação do cenário punk de Brasília e a “promiscuidade” na formação das bandas é muito bem retratada, com seus shows em bares pequenos ou festivais ao ar livre.

Mas o que mais gostei no filme é que ele não endeusa a figura de Renato Russo. Ele era mimado, chato, mesquinho, egoísta e isso é mostrado sem a menor cerimônia. É engraçado ver aquele que é considerado a voz de toda uma geração agindo daquele jeito. É chocante descobrir como ele compôs as letras de algumas canções que tanto admiramos. E é mágico ver que ele era tão humano quanto qualquer um de nós.

Realmente, o Renato era chato. Aponte-me um artista genial que não o seja e lhe direi que você não conhece a figura a quem tanto admira.

Força sempre!

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Conheçam o Tumblr Renato Era Chato.

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