Os caminhos antigos ainda possuem poder

Publicado: 7 de maio de 2015 em Ocultismo
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(Publicado originalmente no Contraversão em 09/10/2014)

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Como estou reorganizando minha coleção de cartas de Magic: The Gathering, resolvi dar um pulo no shopping para comprar alguns plásticos para fichário e manter minhas cartinhas queridas organizadas. O shopping é relativamente perto de casa, então decidi que voltaria a pé, refazendo caminhos antigos que fazia em épocas mais… lúdicas, por assim dizer, da minha vida.

Mas, eis que ao adentrar na loja, descobri que os malditos plásticos haviam acabado, e percebi que havia sido manipulado pelos deuses para empreender a jornada. Sorri para eles por terem me enganado direitinho, mas aceitei o desafio de bom grado e me preparei pare revisitar velhas paragens.

A praça que existe ali perto era um antigo Local de Poder da minha velha trupe de truques magias e enganações. Ali era lugar de ficar bêbado, enamorar, brigar (de maneira figurada e literal), assustar passantes, dançar, vender artesanato com os hippies, discutir verdades absolutas (sabendo que eram transitórias), praticar rituais diversos etc. Ali éramos deuses.

Nós realmente tomamos posse daquele lugar. Havia um coreto ali e, quando chegávamos, todos que estavam nele se retiravam. Estranhos só adentravam com a nossa permissão. Varamos noites ali, ao lado de um posto da Polícia Militar, sem jamais sermos importunados por eles. Vimos prédios erguerem-se e sumirem. Vimos amores nascerem e morrerem. Vimos bicicletas com neon nas rodas e caixas de som mais potentes que muitos carros.

Mas crescemos, a vida começou a nos trazer responsabilidades, assumimos compromissos e, aos poucos, deixamos de frequentar aquele círculo que presenciou tantas histórias. Quando houve uma reforma na praça e o coreto foi totalmente retirado, percebemos que uma era havia chegado ao fim.

E cá estou eu, praticamente dez anos depois, indo rumo a este lugar em busca de não sei o que. Não é que não haja mais Mágika em minha vida. Finalmente estou direcionando energias para objetivos mais concretos, construindo coisas, mas tenho refeito alguns caminhos para fazer os elos entre o que foi e o que é, talvez para ter pistas de o que será.

Minha água havia acabado e entrei em uma padaria no caminho para ter algo para beber durante a caminhada. Mas resolvi deixar a mente um pouco mais aberta para os sinais que receberia no caminho, de modo que comprei uma garrafa de minha cerveja favorita. Sou destes que acredita em detalhes, então escolhi a garrafa da minha cidade.

Sentar no banco aonde ficava o antigo coreto trouxe um mar de lembranças. Fiz um brinde à Praça, à Cidade e à Super Lua e deixei a mente fluir. Apesar do fim daquele marco do nosso Local de Poder, fragmentos das forças que ali habitavam ainda estavam presentes. No banco ao meu lado sentou-se um casal e o rapaz começou a fazer massagens na moça, em um jogo de relaxamento e sedução. Uma placa em cima de um pedestal, que deveria anunciar quem eram dos donos oficiais dali, havia sido cuidadosamente arrancada, pois o pedestal em si estava intacto. Dos quatro mastros de bandeira presentes, dois estavam vazios. Sorrindo, percebi que ainda havia resistência ali.

O tempo urgia e resolvi votar para casa por antigos atalhos que chamava carinhosamente de Pontes da Lua. Passaria por outra praça, esta que foi cenário de batalhas e ficções, por caminhos ermos, chegaria à assim chamada Rua Suspeita e então poderia me considerar de volta à realidade.

Eram lugares realmente ermos e admito que houve um certo temor da minha parte em ser assaltado ou algo do tipo. Uma das grandes diferenças de dez anos para agora é que eu tinha posses em meu poder. Nada especialmente caro, mas o simples fato de ter algumas coisas faz você ter medo de perdê-las e dos riscos que alguma abordagem poderia trazer. Mas esta é a minha cidade e já tinha percorrido aqueles caminhos em horários e condições psicológicas muito piores, aquele era um caminho que seria feito com o coração aberto, de modo que confiei nele e segui.

Chamou minha atenção o quanto tudo aquilo estava me cansando e veio a constatação de que a idade junto com uma vida sedentária estavam cobrando seu preço. Resolvi que seria um sacrifício digno e continuei o tão firme quanto me foi possível. As pichações do meio do caminho evoluíram das tags ilegíveis para grafites elaborados e surreais. Percebi que os lugares ermos estavam mais convidativos, iluminados, bonitos.

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No meio do caminho, lembrei que estava em uma rua onde a luz sempre falhava quando nós passávamos ali, mas hoje ela funcionava perfeitamente. Talvez em uma vã tentativa de chamar alguma coisa, comecei a soprar dentro da garrafa de cerveja vazia como se fosse uma flauta. E foi então que eu vi que um dos símbolos sagrados que marcavam aquele caminho como sendo seguro para mim e para os meus ainda estava ali naquela parede. Aquilo estava ali antes de mim, permanecia ali e com certeza seria visualizado por muito tempo ainda. Até a Rua Suspeita estava mais amigável. Asfaltada, com quase todas as suas casas reformadas, cachorros dormindo ao invés de avançar nos estranhos… Até aquela região escondida entre ruas, esquecida por todos, havia melhorado.

Ao finalmente emergir para a realidade, o cansaço tomou conta de mim e considerei a possibilidade de pegar um ônibus até perto de casa. Mas este não seria um fim digno para esta jornada. Respirei fundo, ignorei as dores diversas que começavam a despontar e prossegui.

Ao virar a última esquina, antes da minha casa, uma barata parou na minha frente e ficou me olhando. Sorri para o Sr. Gulik, que seguiu seus caminhos em busca de alimento. Ali tive certeza de que havia feito a coisa certa naquela noite. Restava tomar um banho, me alimentar, meditar e dormir.

 

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