Manifesto – Orgulho Nerd. Eu tenho!

Publicado: 25 de maio de 2015 em Opinião
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(Publicado originalmente no Contraversão em 25/05/2012)

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Sabe, minha vida não era muito fácil lá pro meio dos anos 1990. Eu era magrelo, de óculos, corcunda, leitor voraz e segundo os amigos: “engraçado e inteligente”. As meninas me definiam como “um cara legal”. Quem lia gibi falava “xismém” e não “équismem”. Na minha quinta-série, na sala de aula o ÚNICO que lia gibi era eu. Lá pelo meio do ano que consegui converter dois amigos meus. E foram estes que me acompanharam até a oitava série. Só quando entraram alunos novos no Ensino Médio foi que conheci mais gente pra conversar sobre o assunto. Meu primeiro grupo de RPG durou quase 2 anos com os membros originais porque a gente não conhecia mais ninguém que jogava.

Em tempos em que a palavra bullying não existia, minha pessoa era alvo fácil das aloprações dos valentões da escola, para usar os termos da época. Desde os tradicionais apelidos vergonhosos (torto, quatro-olho…) até tapas na cabeça e tropeções. O auge disso foi na sétima série, quando, na hora do intervalo, me empurraram escada abaixo com as calças abaixadas. Não sei até hoje como não me machuquei.

Nas aulas de Educação Física, sempre era o último a ser escolhido. Mas não faltavam convites para fazer trabalho ou para integrar grupos nas Feiras de Ciências. Meninas me davam vãs esperanças para conseguir cola na prova e eu caía feito um pato. Só fiquei com uma menina da escola da sétima série e foi a única que consegui ali.

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O ambiente do colegial e do ginásio é uma selva bem cruel quando quer. A única saída foi me unir a outros “excluídos”. E a única coisa que nos unia era sermos aloprados por todos. Adotamos o título de “Nerds” como uma espécie de “somos mesmo, e daí” (o que me faz entender completamente o “100% Preto”) e passamos a eleger alguém que pagava mico como “O Nerd da Semana”. Montamos nosso próprio time fixo para esportes. Perdíamos sempre, mas pelo menos a gente ria uns dos outros ao invés de sermos xingados. Chegamos a ganhar uns dois jogos de futebol, um grande feito para nós.

Claro que hoje em dia reconheço o quanto tudo isso foi importante para a formação do meu caráter e para definir o que sou, mas nem sempre era fácil. Havia dias em que chorava de raiva tentando entender como as coisas funcionavam.

Aí eu lembro do dia em que fui ao cinema ver o filme dos Vingadores. Fomos eu, minha namorada, meus pais e minha tia. O cinema estava lotado. Todo mundo vibrou com filme. Heróis que acompanhei sozinho por um bom tempo somente no papel estavam ali em uma tela enorme, em carne e osso, interpretados por atores do primeiro escalão do cinema.

Eu me lembro que chamei a Bianca, minha namorada, para ir ver Tron: o Legado comigo no cinema em nosso primeiro encontro e passamos a maior parte do tempo antes do filme dentro de uma livraria.

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A camiseta do Lanterna Verde era moda antes do filme sair. Todo mundo sabe quem é Perter Parker, Bruce Banner, Darth VaderLegolas. Posso comprar uma HQ sem que me achem um retardado. É muito mais fácil achar bonequinhos, cards, livros e quinquilharias em geral, bem mais perto de casa e por um preço mais barato. Porra, ser nerd passou a ser um atrativo para muita gente. Como achar isso ruim?

Ser nerd não envolve nenhuma filosofia. Não tem cunho religioso ou social. O que define um nerd são os produtos culturais que ele consome. Se antes isso era um nicho de mercado restrito a poucos inciados, agora tudo isto está ao alcance de todos. Alguns acham ruim perder essa “exclusividade”, como se perdessem algum poder ou conhecimento secreto com isso. Besteira. Todos estão ganhando com isso.

Portanto, amigos e amigas que penaram por anos nas escolas da vida, tenham orgulho de atualmente estarmos finalmente desfrutando o que passamos anos construindo. Se hoje em dia ser nerd é legal, boa parte de “culpa” disso é dos próprios nerds, que tiveram coragem de sair do armário ao invés de passar o resto da vida em casa jogando RPG e videogame.

Não entrem em pânico.

A Força está conosco.

Vida longa e próspera.

E BAZZINGA também, ué! Por que não?

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