Um dia diferente na vida de um zumbi

Publicado: 3 de novembro de 2015 em Crônicas do Caostidiano
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(Publicado originalmente em Contraversão em 04/11/2011)

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“Quando o Inferno estiver lotado, os mortos reinarão sobre a Terra”.
– Frase clássica de filmes de zumbi.

Você acordou com o corpo ligeiramente dolorido e uma leve dor de cabeça, consequência de uma noite no bar com os amigos na noite anterior. Não estava a fim de ir naquele pub na Paulista. O lugar era caro e apertado, porém as pessoas pareciam felizes de pagar para se espremer em um lugar que aparentemente chique. Mas era aonde seus amigos queriam ir, fazia tempo que não os via e, no final das contas, acabou sendo divertido.

Nem tirou o pijama e já estava abrindo seu e-mail de trabalho, mesmo sendo feriado naquele dia. Havia uma proposta de um trabalho freelance, que você leu com calma e aceitou. O pagamento era muito abaixo da média, mas como já tinha seu trabalho fixo, qualquer dinheiro a mais que entrasse estava de bom tamanho.

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Deu uma olhada rápida em seus perfis na redes sociais e descobriu que tinha um vídeo novo, daqueles em que as pessoas se machucam feio praticando Parkour. Riu como se não fossem serem humanos se ferrando e ainda divulgou em todos lugares possíveis, aguardando quantas pessoas iriam curtir aquilo ou replicar através de você. Finalmente a fome ficou insuportável e resolveu tomar café da manhã.

Sua irmã então te ligou, pois haviam combinado de almoçar antes do grande evento do dia. Após discutir aonde iriam comer, resolveram ir ao shopping, já que lá sempre havia muitas opções de restaurante. No final das contas, acabaram comendo no Burger King mesmo. Pagou R$30,00 naquele lanche do lutador brasileiro de Vale-Tudo. Achava caro, mas o lanche parecia grande. E ainda lembrou-se da promoção, pediu afinando a voz e ganhou um sorvete.

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As pessoas ao seu redor riram, mas você se sentiu feliz pela conquista. Rodaram pela praça de alimentação com as bandejas por quase cinco minutos antes de achar um lugar para sentar. Quem havia utilizado antes de vocês esqueceu-se de tirar as bandejas e jogar as embalagens no lixo. Após mais cinco minutos esperando em vão algum funcionário do shopping limpar aquilo, arrumaram a mesa vocês mesmos.

Mal haviam acabado de comer e pessoas se aglomeravam ao redor da sua mesa, com bandejas nas mãos e tentando ser discretas. Pouco à vontade para conversar ali sentados, com aquele monte de pessoas observando-os de maneira hostil, resolveram ir ao local de concentração do grande evento do dia. Ao ver o tamanho da fila para recarregar o bilhete único, achou-se muito esperto por não ter cochilado no horário do almoço do dia anterior para recarregar o seu bilhete em uma papelaria.

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Dentro do vagão do metrô já era possível ver alguns deles, com suas roupas rasgadas e sujas de sangue, feridas abertas (algumas com sangue escorrendo) ou maquiagem pesada. Era Dia de Finados e o mortos caminhariam pelo centro de São Paulo.

Encontraram um casal de amigos seus na catraca e, ao saírem, ficaram espantados com quantidade de mortos-vivos que havia ao redor de vocês. Eram homens, mulheres e crianças. A maioria parecia ser formada por pessoas que eram simples cidadãos antes de morrer. Mas era possível ver policiais, soldados, famosos artistas pop e até piratas e feiticeiros. Incrivelmente havia algumas pessoas que pareciam estar ali para combater tudo aquilo. Desde um sujeito com uma espingarda calibre doze até um funcionário de uma grande loja de eletrônicos. Foi então que meu amigo abriu a mochila dele, tirou alguns apetrechos e, quando menos esperava, já havia tornado-se um morto-vivo.

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Por incrível que pareça, a transformação em algo que em tese era um ser sem vontade e sem inteligência operou uma espécie de transfiguração. Agora as pessoas ao seu redor reparavam em você, sorriam, tiravam fotos ao seu lado, trocavam contatos, ofereciam bebidas.

Quando começou a caminhada, arrastou-se mancando e gritando, como se pudesse assustar todas as pessoas do mundo. Andava esbarrando em todos, sem se importar com que estava em seu caminho, e ninguém reclamava. Sujou de sangue bancas de jornais, bancos, lanchonetes e orelhões. Enfrentou mais de um caçador, sobrevivendo à espingardas, submetralhadoras, machados, facões. Pessoas que não participavam do grande evento olhavam em um misto de nojo e indignação e você urrava para elas, para que ficasse mais do que claro o que você era. E muitos ao seu redor faziam igual, em uma massa de sangue e gritos que tomava o centro velho da “Locomotiva do Brasil”.

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Após o fim da caminhada, você e seus amigos limparam-se e foram em um bar perto dali beber e comer alguma coisa. A batata frita estava horrível e o lanche mal-passado, mas não reclamaram. Já havia trabalhado em um bar e sabia que após uma reclamação era muito comum os funcionários não limparem direito o copo que você vai usar, ou até mesmo coisa pior. Resolveram voltar de ônibus para economizar e ficaram meia hora esperando no ponto.

Depois de dar uma última checada em seus e-mails antes de deitar, subitamente percebeu que estava pensando em quando poderia andar pelas ruas da cidade novamente, fazendo o que bem entender e sem se importar com o que as pessoas ao redor achariam. Mas lembrou-se que tinha que acordar mais cedo que o normal para fazer alguns relatórios para seu chefe e resolveu dormir de uma vez.

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