Wild Cards de volta ao Brasil! – Parte II: eu e as cartas

Publicado: 17 de outubro de 2016 em Literatura & Artes
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(Publicado originalmente no Contraversão em 25/07/2013)

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Eu era um nerd típico no meio dos anos 1990: estudioso, desajeitado com as mulheres e alvo constante das zoeiras dos playboys e valentões do colégio. Já lia HQs (na época era um marvete de carteirinha) e jogava RPG, sendo o “mestre oficial” da turma. A febre entre meu grupo de jogo na época era o GURPS e devorávamos todos os cenários possíveis. O GURPS era um sistema de RPG genérico que permitia criar aventuras em quaisquer cenários, com mínimas adaptações nas regras. Caso você quisesse se aprofundar em algum cenário mais específico, existiam suplementos detalhando desde eras históricas até viagens espaciais.

Havíamos acabado uma campanha de fantasia medieval e estávamos no meio de uma de cyberpunk quando a Devir lançou o suplemento GURPS Supers, com regras detalhadas para jogar com heróis do mais diversos tipos. Um dos maiores problemas deste RPG no Brasil na época era sua falta de cenários prontos para jogar. Você tinha que criar do zero ou adaptar de algum outro jogo. Para suprir esta demanda, o GURPS Supers brasileiro era um suplemento “dois em um”: além do Supers em si, o livro trazia junto a adaptação do mundo de Cartas Selvagens, com história e diversos personagens. Você podia ainda comprar um kit que trazia junto um pôster a e minissérie em quadrinhos Cartas Selvagens, que a Globo havia lançado alguns anos antes.

Claro que comprei o kit.

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Li o livro d cabo a rabo, mas nunca chegamos a usar aquelas regras de supers. Particularmente, achei muito complicado, com muitas contas e deixei de lado. Mas adorei aquele mundo afetado pelo alienígena taksiano. Como disse no começo do texto, na época eu era marvete. Imaginem como fiquei ao descobrir um mundo onde heróis envelheciam, morriam, mudavam de lado, se aposentavam e até mesmo transavam! Um mundo onde a presença de seres superpoderosos realmente afetou as coisas e mudou os rumos da história.

Mas talvez o que mais tenha me fascinado ali foi descobrir que aquilo que estava lendo foi criado em uma mesa de RPG, virou uma série de livros, uma HQ e agora voltava ao RPG. Acredito que este foi o efeito do vírus carta selvagem em mim: querer virar escritor (seria eu então um “dois de paus”, com um poder inútil?).

Após ler e reler aquelas páginas algumas vezes, parti para a HQ. Era a época dos formatinhos da editora Abril e gibis em formato americano eram sinônimo de “material adulto”. Quando um moleque pegava um destes para ler, sabia que a coisa era séria. E ali vi o universo de Wild Cards em ação. Conheci personagens marcantes como o arqueiro sem superpoderes Yeoman (teris sido ele o responsável por eu ter o Arqueiro Verde como meu herói favorito?); a curinga de pele transparente Crisálida, ao mesmo tempo repugnante e linda; Dorminhoco, que cada vez que acorda tem um corpo e poderes diferentes; a Peregrina, com suas belas asas e belas pernas; e o Grande e Poderoso Tartaruga, um nerd telecinético que age dentro de um tanque blindado (obviamente, meu favorito até agora).

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Entenda, eu nem sabia da existência de Watchmen na época. O nome George R. R. Martin não significava nada para mim. Mas aquele foi meu primeiro contato com um mundo de super-heróis tentando ser sério e realista. Foi a primeira vez que soube que moleques que nem eu poderiam escrever sobre o que gostavam e publicar isso para divertir outras pessoas. Então imaginem a minha alegria histérica quando soube que a editora LeYa ia começar a publicar a série Cartas Selvagens aqui no Brasil.

Acompanhei com afinco cada nota e notícia que saía sobre a série. Discordei de manterem o nome Wild Cards ao invés do meu bom e velho Cartas Selvagens, mas tudo bem. Comprei o livro ainda na pré-venda e devorei a obra, como não fazia havia alguns meses já.

Foi um prazer enorme reencontrar aqueles companheiros da minha adolescência. Todos eram como me lembrava, mas agora havia mais e mais detalhes sobre cada um deles. Algumas coisas que na HQ ficaram soltas para mim na época passaram a fazer mais sentido. Meus personagens favoritos deram a cara (menos a Peregrina…) e fiquei ainda mais fascinado por eles. Foi uma leitura agradável e divertida.

Todos os contos são ótimos? Não. Como em toda coletânea, existem altos e baixos. Mas até os contos fracos estão acima da média de muita coisa que se lê por aí. Rolou até de eu passar mal ao ler uma passagem da história do Fortunato, coisa que não acontecia fazia algum tempo já…

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A edição em si está muito boa, bonita e a achei leve para o tamanho do livro. Alguns erros de português passaram batidos e me chamaram a atenção por confundir a leitura, já que acontecem principalmente ao indicar falas de personagens. Espero que arrumem nas reedições. Apesar do nome da série ter permanecido em inglês, todo o resto foi traduzido, de modo que os nomes peculiares dos personagens estão lá, o que é uma marca registrada do cenário.

A série já está no seu quarto livro aqui no Brasil. Partiu fazer parte deste universo maravilhoso?

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