De quando conheci o autor que me ensinou a jogar RPG

Publicado: 2 de dezembro de 2016 em rpg
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Quando falamos de grandes cenários e sistemas de RPG medieval, alguns nomes e personagens logo vem à mente. Para o pessoal mais das antigas, Forgotten Realms de Dungeons & Dragons é um cenários mais queridos de todos os tempos, com o grande mago Elminster, o elfo-negro herói Drizzt Do’Urden e o sinistro Vecna. Para os mais novos, e jogo nacional Tormenta e seu mundo de Arton trazem à mente nome como os grandes magos Talude e Vectorius, do grande herói Arkham Braço-Metálico e do infame Mestre Arsenal.

Mas, na minha jornada RPGística, o maior cenário de todos os tempo é Titan e seus três continentes de Allansia, Mundo Antigo e Khull. Os grandes magos do mundo são Nicodemus, Yaztromo e o Curandeiro, Chadda Darkmane é um baita herói e poucos vilões chegam aos pés do Arquimago e de Lord Azzur. Tudo isso embalado por um dos mais simples sistemas de RPG que vi na vida. Estamos falando do Figthing Fantasy, RPG inglês criado por Steve Jackson e Ian Livingstone e publicado atualmente no Brasil pela Jambô Editora.

Lorde Azzur, o sombrio ditador de Porto Areia Negra.

Lorde Azzur, o sombrio ditador de Porto Areia Negra.

Mas, em 1992, quando eu tinha 11 anos, a Jambô nem existia e descobri este RPG de outra maneira. Quando meus pais precisavam fazer compras no Shopping Center Norte (era um dos poucos que existia na época), fiz um trato com eles: eu ficava de boas em uma livraria fuçando as coisas, os deixava em paz e eles vinham me buscar na volta.  Às vezes meus irmãos mais novos ficavam comigo, outras vezes não. E o pequeno Alessio ia para a sessão infantil e ficava ali, de boas, folheando milhares de livros. Sempre gostei de ler e não sei quando que peguei este hábito de ficar rodando livrarias (que tenho até hoje), mas foi nessa época que comecei a colecionar Asterix, o gaulês, por exemplo.

E também nesta mesma época eu sempre via um livro chamado Planeta Rebelde, onde um alien-lagarto gordinho ameaçava com uma espada um homem em trajes espaciais. O livro vinha embalado com um par de dados e atrás dizia “Uma aventura onde VOCÊ é o herói!”. Fiquei namorando este livro algumas vezes e por fim pedi para meus pais comprarem. Ao chegar em casa e começar a ler, minha mente explodiu. Aquilo era um livro-jogo.

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Para quem não conhece este tipo de livro, basicamente a história toda é dividida em partes que são numeradas (nos livros-jogos de Fighting Fantasy é sempre de 1 a 400) e, cada vez que você deve tomar uma decisão, o livro pede para você “pular” para o número escolhido. Então se na história aparece um monstro e resolvo encará-lo, devo ir para a parte 20. Se resolvo fugir, vou para a 150. E assim vou lendo até solucionar a trama toda ou meu personagem morrer.

Peraí, morrer?

Isso mesmo. Todas as histórias destes livros envolvem combater algum mal ancestral ou vilão que quer dominar o mundo e é você o protagonista que vai tentar derrotar o cara malvado e virar herói. Boa parte dos livros são de fantasia medieval, mas existem outros de terror, ficção científica, mitologia grega e até futuros distópicos no melhor estilo Mad Max!

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Então o pequeno Alessio pegou aquele livro e tentou derrotar um maligno triunvirato alienígena que estava escravizando a raça humana. Tudo ia muito bem, mas uma parte de solução do enigma final envolvia traduzir uma inscrição em binário. Na época eu não entendi como fazer isso e deixei este livro de lado. Mas o estrago estava feito.

Comecei adquirir todos os livros da coleção Aventuras Fantásticas e solucioná-los. Depois de um tempo, consegui traduzir a maldita coisa em binário do primeiro livro que comprei. E assim passei boas horas da minha infância fechado em meu quarto com as janelas fechadas e um abajur ligado (para “dar um clima”) enfrentando o mal em mais diversas aventuras.

Algum tempo depois, vi um livro chamado Dungeoneer –Aventuras Fantásticas Avançado. Os outros livros-jogos eram em formato de bolso, mas este era em “tamanho normal”. Pensei que aquele era O LIVRO-JOGO SUPREMO DE TODOS OS TEMPOS e comprei babando. Mas, para minha surpresa, aquele livro te ensinava um outro jogo. Com uma versão ligeiramente modificada do sistema dos livros-jogos, aquela obra te ensinava a jogar RPG.

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De lá pra cá joguei, GURPS, Storyteller, 3D&T, TWERPS, D&D, AD&D e coisas que nem lembro mais, mas Titan e a Aventuras Fantásticas sempre tiveram lugar cativo em meu coração. Minha maior e melhor campanha (que teve uns bons 5 anos) foi com esse sistema e cenário. Claro que todo RPGista modifica e acrescenta coisa, mas tudo nasceu ali.

Comprei todos os livros oficiais do cenário em português e, em uma época em que a internet começava no Brasil (fim dos anos 1990) começamos a caçar material extra. Baixamos livros oficiais e não oficiais em inglês. Fuçamos cada canto do cenário para tornar nossa campanha mais rica, com trechos que eram uma frase obscura trazendo descobertas que mudavam tudo.

Os personagens da campanha começaram como simples aventureiros e se tornaram campeões épicos em seu sentido pleno, dizimando exércitos do mal, viajando entre dimensões e conversando com deuses. Alguns casaram e tiveram filhos, mas continuaram suas aventuras outros tornaram-se sumo-sacerdotes de seus deuses, um optou por ser feliz ao lado de seu amor e um deles tornou-se de fato um deus. A campanha não teve um fim oficial, todos ali cumpriram seus papéis.

Ian Livingstone assinando meu "Exércitos da Morte".

Ian Livingstone assinando meu “Exércitos da Morte”.

E ontem, no primeiro dia da Comic Com Experience de 2016, eu realizei um sonho: conheci Ian Livingstone. Quando a Jambô anunciou que autor estaria no evento, percebi que este autor era a única pessoa que de fato eu queria ver ali. Tudo bem que Alan Davis, Simon Bisley e outros grandes nomes da cultura pop mundial estariam ali, mas Ian foi um cara que realmente fez parte da minha formação nerd e sabem lá os deuses quando eu o veria de novo.

Graças à Editora Draco, onde tenho alguns trabalhos de quadrinhos publicados, consegui um convite para ir ao evento e, para minha felicidade, ela repetiria sua parceria com a Jambô e dividiriam o estande. Separei então um dos livros novos que tenho (Exércitos da Morte) e também levei minha edição de 1994 de Titan – O mundo das Aventuras Fantásticas para ter este registro em um livro que é referência em cenários de RPG e que sempre usei. O primeiro era para autografar para mim e o segundo também para o Mário, outro grande fã do Ian, que sempre jogou comigo e também o maior fã de Aventuras Fantásticas depois deste que vos escreve.

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O autógrafo na minha edição de “Titan (…)” de 1994!

Quando vi Ian na minha frente, fiquei tão emocionado que não sei se ele entendeu meu inglês, mas tentei explicar que jogava RPG desde os meus 12 anos, que foram os livros dele que me ensinaram a jogar e que aqueles eram meu RPG e cenário favoritos até hoje. Ele foi super simpático, conversou comigo por cerca de dez minutos e autografou meu dois livros. Ao ver meu Titan, disse que nunca tinha visto esta edição e pediu para tirar uma foto para mostrar ao Steve Jackson (não o do GURPS). Faltam palavras para descrever o quanto isto foi emocionante para mim.

Eu já havia conhecido o criador de GURPS Steve Jackson e também Dave Arneson, um dos criadores do D&D, mas poder conversar de boas com um dos caras que me ensinou a jogar RPG é algo incomparável.

Fica aqui meu agradecimento ao pessoal da Jambô (Rogério Saladino, Gustavo Brauner, Guilherme Dei Svladi de um modo especial) pela oportunidade e também aos colegas de luta da Draco Erick Sama e Raphael Fernandes pelo convite de ir a CCXP. Dívidas de gratidão eternas a vocês.

Um nerd feliz!

Um nerd feliz!

E não poderia deixar de mandar um abraço especial a todos que jogaram este excelente cenário de RPG comigo, são muitos nomes e posso vir a esquecer alguém, mas todos fizeram parte desta jornada: Fernando Sampaio, meus irmão Lucas e Leandro, Família Rolim (Gustavo, Luíza e Ricardo, Família Grec (Rodolfo e Felipe), Família Simões (Andressa e Gustavo), Henrique Rezende, Flávia Tonin, Michelle Pirini, Bruno Medeiros e mais um monte de gente.

 

Que tenhamos muitas aventuras fantásticas ainda!

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comentários
  1. Rauldouken disse:

    Caralho que história emocinante. Eu infleizmente nunca decoro muito o nome dos autyores das coisas. Mas ler isso, lembra o quanto o rpg e a ficção em geral são importantes e como muitas vezes nos influenciam. Foi mesmo emocionante ^^

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