Arquivo da categoria ‘Crônicas do Caostidiano’

Arte por Lobo Loss.

Creio não ser segredo para ninguém que amo eventos de quadrinhos. Além dos fatores da grana da sua arte entrar na hora, é muito bacana ver as reações espontâneas das pessoas ao verem suas obras e a troca de vivências e experiências com outros artistas. Cansa? Muito, mas sempre vale a pena.

Antes de produzir minhas próprias obras, participei de muitos eventos como vendedor para editoras e livrarias, e isso me ajuda MUITO a vender meu trabalho. E uma das lições mais importantes foi a de criar um punch-line para cada obra. Chamo de punch-line um resumo de um livro, gibi ou filme, dito de modo a chamar a atenção de um potencial comprador para a obra em questão. Dependendo do produto, é massa criar mais de uma punch-line, assim você consegue vender para as mais diversas pessoas.

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Eu devia ter meus 12-13 anos na época, ou seja, início dos anos 1990 Tinha não só descoberto o mundo mágico da masturbação, como também a “Sexta –Sexy”, programa de filmes soft porn que passa na noite de sexta-feira (dãããã…) da Rede Bandeirantes.

Um dia prometo escrever sobre a aventura que era se masturbar na sala de casa debaixo das coberta e com o controle da TV na outra mão, mas o assunto aqui é outro: o Disque-Sexo.

Durante os intervalos dos filmes passavam algumas propagandas com mulheres lindas e gostosas interpretando personagens-fetiche (empregada, professora, enfermeira…) e convidando você a ligar para elas para um papo quente, 24 horas por dia.

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Quando era criança, sempre tive fascínio pela figura do Tiozão de Bar. Ele parecia fazer parte de uma espécie irmandade não-oficial, onde todos se encontravam sem combinação prévia e trocavam amenidades sem abordar profundamente nada, em uma espécie de busca por algo que os distraísse de uma provável rotina de merda no trabalho ou em casa.

A maneira também como o bar os trata é algo quase comovente. Não apenas sabem os nomes de cada um, como também suas bebidas, petiscos e lanches favoritos, de modo que seu pedido chega no balcão ou mesa antes mesmo de ser solicitado.

Aqui cabe abrir um parênteses.

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Comer nas ruas é um eterno tentativa e erro. Não estou falando de redes de fast food ou de restaurante, mas de barraquinhas, quiosques e padocas nas ruas e terminais urbanos de ônibus e trens. Ao mesmo tempo em que a oferta é alta, a qualidade varia muito, e só dá para saber o que te espera do jeito tradicional: comendo.

Para aumentar ainda mais a tensão, nem todos os locais são bons em tudo. Em um a coxinha é meia boca, mas o risólis é maravilhoso. Em outro o hamburgão é pura massa, mas o cachorro-quente é profissional. Então, além de comer nos mais diversos locais, temos que comer os mais diversos tipos de quitutes.

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Toda vez que vou cortar o cabelo, aproveito e dou um tapa na barba também. Nenhuma das operações é muito complexa. Já faz alguns anos que passo a máquina dois na cabeça e tento deixar os pelos do rosto menos despontados, já que a barba é relativamente grande. Como é difícil achar atualmente locais bons e baratos para fazer ambos ao mesmo tempo, acabo indo nestas “barbearias modernas”.

E o problema de ir nestes lugares é que tu quer somente arrumar o cabelo e a barba e aí vem o maldito conceito de EXPERIÊNCIA. O local é mesmo tempo vintage e contemporâneo, com decoração “rústica”, mas tem bar, vídeo game, fliperama, pebolim, mesa de pôquer. Todos os barbeiros são jovens tatuados que ficam puxando papo durante o trabalho e temos a única mulher do recinto na recepção. Tudo bacana, tudo lindo… e tudo incluso no preço do corte do cabelo e da barba. Ainda bem que faço isso a cada dois meses.

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(Publicado originalmente em Contraversão em 04/11/2011)

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“Quando o Inferno estiver lotado, os mortos reinarão sobre a Terra”.
– Frase clássica de filmes de zumbi.

Você acordou com o corpo ligeiramente dolorido e uma leve dor de cabeça, consequência de uma noite no bar com os amigos na noite anterior. Não estava a fim de ir naquele pub na Paulista. O lugar era caro e apertado, porém as pessoas pareciam felizes de pagar para se espremer em um lugar que aparentemente chique. Mas era aonde seus amigos queriam ir, fazia tempo que não os via e, no final das contas, acabou sendo divertido.

Nem tirou o pijama e já estava abrindo seu e-mail de trabalho, mesmo sendo feriado naquele dia. Havia uma proposta de um trabalho freelance, que você leu com calma e aceitou. O pagamento era muito abaixo da média, mas como já tinha seu trabalho fixo, qualquer dinheiro a mais que entrasse estava de bom tamanho.

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Deu uma olhada rápida em seus perfis na redes sociais e descobriu que tinha um vídeo novo, daqueles em que as pessoas se machucam feio praticando Parkour. Riu como se não fossem serem humanos se ferrando e ainda divulgou em todos lugares possíveis, aguardando quantas pessoas iriam curtir aquilo ou replicar através de você. Finalmente a fome ficou insuportável e resolveu tomar café da manhã.

Sua irmã então te ligou, pois haviam combinado de almoçar antes do grande evento do dia. Após discutir aonde iriam comer, resolveram ir ao shopping, já que lá sempre havia muitas opções de restaurante. No final das contas, acabaram comendo no Burger King mesmo. Pagou R$30,00 naquele lanche do lutador brasileiro de Vale-Tudo. Achava caro, mas o lanche parecia grande. E ainda lembrou-se da promoção, pediu afinando a voz e ganhou um sorvete.

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(Texto originalmente publicado no NerDevils em 30/09/2010)

“Tudo posso naquele que me fortalece”.
– Bíblia Sagrada, Carta de São Paulo aos Filipenses.

god gamer

Eu devia ter uns 16 anos. Naquela época era comum eu e mais uns amigos nerds nos reunirmos para ir aos sebos do centro garimpar livros de RPG e ocultismo, comprar algum CD de metal importado na Galeria do Rock e depois passar na Liberdade para olhar aquelas mil coisas legais japonesas e não comprar nada. Era um tempo em que a Fonomag e a Animangá era points e você ter um mangá original em japonês fazia de você um cara fodão, mesmo que não soubesse ler um mísero caractere de qualquer alfabeto japonês.

(Pausa para os chatos de plantão: sim, eu sei que a Animangá não fica na Liberdade.)

Em uma dessas ocasiões já havíamos feito nosso garimpo e estávamos atravessando a Praça da Sé em direção ao Bairro Proibido, quando fomos abordados por um evangélico. Normalmente eles se limitam a entregar algum panfleto, nos abençoar e sair andando. Mas este em particular viu um bando de adolescentes cabeludos e deve ter achado que era sua missão divina nos salvar dos braços de Satã, pois começou a falar aquela ladainha que todo mundo já deve ter ouvido uma vez na vida. Após alguns minutos resolvi ser educado com ele:

– Entendo seu ponto de vista e tudo, mas já tenho religião. Frequento a Igreja Católica, participo de alguns grupos de lá…

Eis que nosso pretenso salvador me interrompeu com a seguinte argumentação:

– Pois saiba que meu Deus é melhor que o seu!

Não sei se foi a raiva de ter ouvido uma merda dessas, se foi a pressa de ir embora ou se foi algum tipo de Epifania instantânea, mas virei para ele de maneira um tanto quanto efusiva e disse:

– Seu Deus? SEU DEUS? Vem cá, seu Deus sabe dar combo aéreo?

O pregador pareceu ter entrado em pânico. Era óbvio que ele não sabia o que era um combo aéreo e não poderia dizer que “sim” com o risco de dizer que o Senhor fazia algo impróprio. Ele pareceu diminuir e respondeu de maneira vacilante:

– Não…

Não contente em ver um evangélico dizendo que seu Deus onipotente, onisciente e onipresente não poderia fazer algo, eu ainda soltei:

– Então seu deus é um lixo!

E rindo efusivamente, continuamos nosso caminho discutindo como seria Jesus Cristo em um fight game dando 12 hit combo, um para cada apóstolo.

combo jesus

stack of newspapers

“Quem faz o jornal não são os redatores; são os leitores.”
– Émile de Girardin

Sou destes que gosta de jornal no papel mesmo.

Gosto de fazer mil dobraduras para conseguir ler na mesa do café da manhã, no ônibus e no metrô.

Gosto de passear por todos os cadernos e acabar lendo matérias, colunas e artigos que me chamaram a atenção.

Gosto das cartas de gente que tenho vontade de esganar por escrever tamanhas sandices e gosto da educada troca de farpas entre personagens das manchetes ofendidas e jornalistas.

Gosto de preguiça dos artistas que fazem as tiras diárias e torcem a mesma piada até ela ficar irritante.

Gosto de ler meu horóscopo e o da minha namorada e esquecer todas as previsões assim que viro a página.

Gosto de pegar o guia cultural e ver todos os livros, filmes e discos com notas “regular”e “ruim”.

Gosto do ombudsman detonando o jornal todo domingo.

Gosto de sujar as mãos naquela tinta vagabunda.

Gosto de recortar textos e fotos e gráficos e guardar em pastas e gavetas.

E gosto, em tempos em tempos, de fazer aquela limpa e jogar um monte de papel amarelado fora, revendo um monte de coisas e rindo das bobagens que achava importantes.

vince ray

“Rápido garçom, me traga seu melhor whisky
Esse seu amigo aqui só tem mais meia hora
Até que diabo descubra que morri
E venha me levar embora”.
Matanza, “Wisky para um condenado”

Não adianta. Chegue sozinho em um balcão de bar ou padaria, peça sua bebida, a deguste na sua, sem falar com ninguém e logo será visto como um alcoólatra. Caso tenha a ousadia de sentar-se em uma mesa, pior ainda. Caso o garçom pergunte se está esperando alguém e disser que não, parecerá que acabou de confessar que gosta de transar com, sei lá, filhotes de panda.

Pessoas sozinhas em bares não são vistas com bons olhos. A impressão é os que chegam solitários tem o dever moral e cívico de se enturmar com as pessoas ao redor, mesmo que todos sejam totalmente estranhos. Como alguém que já esteve dos dois lados do balcão, pude observar isso por vários ângulos. Realmente existem aqueles que estão desesperados e usam o barman /garçom como psicólogo ou melhor amigo. Mas o sujeito está lá trabalhando, não pode dar exclusividade para nenhum cliente, então finge que ouve enquanto lava copos ou prepara alguns drinks (Mentira: gostosas dando bola tem exclusividade TOTAL e colegas de balcão até salvam a sua se for tiro certo).

Mesmo eu costumava estranhar pessoas bebendo sozinhas. Achava triste. Todos estavam ali rindo, falando alto, flertando, e lá tinha alguém com o copo na mão e perdido em seus próprios pensamentos. Minha vontade era chegar e chamar a pessoa para sentar com a gente. Nunca fiz isso, graças aos deuses.
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