Arquivo da categoria ‘Literatura & Artes’

(Publicado originalmente no Contraversão em 25/07/2013)

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Eu era um nerd típico no meio dos anos 1990: estudioso, desajeitado com as mulheres e alvo constante das zoeiras dos playboys e valentões do colégio. Já lia HQs (na época era um marvete de carteirinha) e jogava RPG, sendo o “mestre oficial” da turma. A febre entre meu grupo de jogo na época era o GURPS e devorávamos todos os cenários possíveis. O GURPS era um sistema de RPG genérico que permitia criar aventuras em quaisquer cenários, com mínimas adaptações nas regras. Caso você quisesse se aprofundar em algum cenário mais específico, existiam suplementos detalhando desde eras históricas até viagens espaciais.

Havíamos acabado uma campanha de fantasia medieval e estávamos no meio de uma de cyberpunk quando a Devir lançou o suplemento GURPS Supers, com regras detalhadas para jogar com heróis do mais diversos tipos. Um dos maiores problemas deste RPG no Brasil na época era sua falta de cenários prontos para jogar. Você tinha que criar do zero ou adaptar de algum outro jogo. Para suprir esta demanda, o GURPS Supers brasileiro era um suplemento “dois em um”: além do Supers em si, o livro trazia junto a adaptação do mundo de Cartas Selvagens, com história e diversos personagens. Você podia ainda comprar um kit que trazia junto um pôster a e minissérie em quadrinhos Cartas Selvagens, que a Globo havia lançado alguns anos antes.

Claro que comprei o kit.

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(Publicado originalmente no Contraversão em 15/07/2013)

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George R. R. Martin ficou famoso no Brasil devido à série de fantasia medieval As Crônicas de Gelo e Fogo, mais popularmente conhecidas como Game of Thrones / Guerra dos Tronos, nome do primeiro livro da saga. O estilo realista, a trama política e a sanguinolência que permeiam a obra a tornaram um sucesso de público e crítica, com um seriado de TV baseado nos livros que tem feito tanto sucesso quanto sua versão escrita. Mas, antes de narrar a guerra pelo Trono de Ferro, Martin foi um dos responsáveis pela criação de um universo tão rico quando Westeros: a série de livros Wild Cards (Cartas Selvagens, em português).

Dizem as lendas que Wild Cards era o cenário de RPG de uma campanha envolvendo super-heróis e que Martin era o narrador do grupo. Os jogadores ficaram tão envolvidos com a mitologia criada que resolveram transformá-la em uma série de contos ambientadas nela (quem nunca?), com Martin servindo como organizador e editor. A ideia foi um sucesso e gerou uma série de livros que já está em seu 22° volume (e ainda não acabou!), adaptações para HQ e um retorno ao RPG.

A trama gira em torno de um vírus alienígena que infecta o Planeta Terra após o término da Segunda Guerra Mundial e seus efeitos na história da humanidade. Desenvolvido pela civilização avançada do Planeta Takis, ele possui a capacidade de causar mutações únicas nos humanos infectados, de acordo com as predisposições de cada indivíduo. Como os efeitos de uma infecção em massa eram desconhecidos, os takisianos resolveram fazer o teste em um planeta onde a espécie dominante possui o código genético idêntico ao deles. No caso, o nosso planeta.

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(Publicado originalmente no Mobground em 04/11/2015)

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Fui uma criança que sonhava em ser cientista. Comprava aqueles “kits de ciências” que eram vendidos em lojas de brinquedos. Fazia experiências com os mais diversos insetos colhidos em quintais e nas ruas. E, obviamente, era apaixonado por dinossauros.

Guardo até hoje álbuns de figurinhas, revistas e recortes de jornais sobre o assunto. Sonhava em ser paleontólogo. Portanto, imaginem minha surpresa quando, em 1991, anunciaram um livro sobre um parque onde visitantes poderiam ver dinossauros de verdade recriados por engenharia genética. Era uma edição de capa dura com o título traduzido como Parque dos Dinossauros.

Acompanhei a jornada de Alan Grant, Ellie Sattler, Ian Malcom e companhia com o coração na mão. Até hoje as sequências do tiranossauro rex atacando os carros e dos velocirraptors caçando todos no prédio principal me deixam, no mínimo, tenso para cacete. E naquela primeira leitura aquele livro tornou-se minha obra favorita do resto da minha vida.

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De lá pra cá, li o livro quatro vezes, assisti ao filme sete e, obviamente, comemorei que nem um jogador de futebol fanático quando a Editora Aleph anunciou que iria lançar uma nova edição de Jurassic Park, com nova capa e diversos extras.

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(Publicado originalmente no Blog da Fnac em 18/04/2013)

 

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“ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn”*.

Em tempos antes do próprio tempo, seres ancestrais habitavam a Terra, todo o universo e além. Eram seres tão poderosos que suas formas e conceitos não podiam ser compreendidos pela limitada mente humana. Muitos deles partiram para outras dimensões, antes do próprio conceito de humanidade existir. Outros permanecem entre nós, adormecidos nas profundezas do oceano ou nos confins do planeta. Seus adoradores fazem ritos tenebrosos e sacrifícios horrendos, nutrindo uma vã esperança de obterem poderes sinistros ou serem poupados quando seus mestres retornarem. E eles retornarão.

Das regiões mais distantes do universo, diversas raças alienígenas vêm o nosso planeta em busca de minérios ou de experiências cujo objetivo só eles compreendem. Isolados há séculos, começam a ser descobertos com o avanço da civilização urbana. Para preservar a si mesmos e suas pesquisas, iniciam um lento processo de infiltração na sociedade terráquea.

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(Publicado originalmente no Contraversão em 18/08/11)

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Na primeira década do século XX, o que ocupava a cabeça e esvaziava os bolsos de jovens e muitos adultos eram magazines mensais com contos de ficção científica e fantasia heróica. Trazendo quase sempre em suas capas personagens exóticos ou garotas voluptuosas correndo perigo, estas “revistas” eram feitas da parte mais barata do papel, conhecido como “polpa” e deram origem ao termo “Pulp Fiction”.

A revistas pulp não tinham pretensão literária e se destinavam à entretenimento despretensioso, rápido e barato. Mesmo assim, grandes escritores iniciaram suas carreiras nelas. Gente do calibre de Isaac Asimov, Dashiell Hammette Raymond Chandler. E as histórias em quadrinhos começaram sua trajetória como uma “evolução” dos pulps, já que Gil Kane (Lanterna Verde, Esquadrão Atari), Mort Weisinger (co-criador do Arqueiro Verde e do Aquaman) e Julius Schwartz (lendário editor da DC Comics) escreveram nestes revistas também.

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E, dentre as centenas de publicações que existiam na época, uma ostentava o slogan “Uma Revista Sem Similar”. Seu nome era Weird Tales. Foi criada em 1923 por J. C. Henneberger, um ex-jornalista que possuía um peculiar gosto por histórias macabras fossem reais ou fictícias.  O segundo editor da revista foi Fransworth Wight, que tentando equilibrar a Weird Tales entre as exigências do mercado e seu gosto por literatura fantástica, deu a publicação uma identidade única.

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(Publicado originalmente no Blog da Martins Fontes Paulista em 16/06/2012)

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Dia 16 de Junho é uma data especial para os fãs do escritor irlandês James Joyce, pois ocorre a comemoração do Bloomsday. O nome vem do protagonista do livro Ulysses, Leopold Bloom.

Na obra, 18 capítulos narram aproximadamente 18 horas do dia 16 de Junho na vida do vendedor Leopold Bloom e situam os personagens e incidentes a Odisséia de Homero na Dublin de 1904, em uma paródia da obra grega. Cada um dos capítulos tem estilo literário próprio, além de fazer referência a uma parte da obra de Homero e ter associado a ele uma cor, uma arte e um órgão do corpo humano.

Joyce utilizou do fluxo de consciência e diversas técnicas literárias para apresentar os personagens e detalhes do cenário. Ao mesmo tempo em que elementos da mitologia clássica e a maior parte do foco está na mente dos personagens, há um detalhismo extremo na descrição da cidade. O resultado é uma escrita em que a miscelânea de estilos se alia à uma estrutura formal, o que tornou o livro essencial para o desenvolvimento da literatura modernista do século XX.

(Publicado originalmente no Blog da WMF Martins Fontes em 20/06/2012  e repostado aqui com atualizações)

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Pintor, desenhista, ilustrador e escritor, Paulo Pasta nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Ariranha. Formou-se em Artes Plásticas pela ECA/USP em 1983 e partir daí fez cursos nas mais diversas áreas: desenho e gravura em metal, litografia, serigrafia e pintura. Ministrou cursos na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Faculdade Santa Marcelina, Fundação Armando Álvares Penteado e Universidade Presbiteriana Mackenzie. Também ministrou cursos livres em importantes instituições culturais, como o Museu Brasileiro de Escultura e o Instituto Tomie Ohtake.

Realizou sua primeira exposição individual em 1984, na Galeria D. L. H., e já recebeu o Prêmio Brasília de Artes Plásticas no Museu da Arte em Brasília e o Prêmio Price Watterhouse – Conjunto de Obras. Formou-se mestre e doutor em Artes Plásticas pela ECA/USP, aonde ministra aulas e tem suas obras incluídas em importantes acervos e museus nacionais.

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Seu último livro, A educação pela pintura, reúne seus textos sobre arte dos últimos cinco anos. São pequenos ensaios sobre pintura e pintores, feitos em sua maioria para exposições ou seminários. Complementando a obra, são apresentadas quatro entrevistas que o pintor concedeu, permitindo ao leitor observar as mudanças tanto do processo de criação de Pasta quanto de seu modo de compreensão da arte.

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(Publicado originalmente no Blog da Martins Fontes Paulista em 30/05/2012)

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Em 1934 um texto defendia que o povo romeno era, por definição, cristão ortodoxo. Portanto, judeus, ateus e membros de qualquer outra denominação religiosa deveriam ficar às margens da sociedade, sendo assim chamados de marginais, excluídos, hooligans. No ano seguinte o dramaturgo judeu Mihail Sebastian publicou em resposta o livro Como me tornei um hooligan.

Sendo assim, O retorno do hooligan, novo livro de Norman Manea, mostra a que veio já em seu título. Misto de romance, autobiografia e diário, a obra narra desde o exílio do autor rumo a um campo de concentração na Ucrânia aos cinco anos de idade até seu segundo retorno à Romênia em 1997.

O primeiro retorno de Manea à Romênia foi após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Envolveu-se com o Partido Comunista, mas logo se desiludiu com o regime e teve seus livros censurados, o que o levou a deixar o país novamente. Sua volta no final dos anos 90 seria marcada por um aprofunda sensação de não pertencer mais aquele lugar. Não bastasse sua ascendência judia, o que já o tornava um hooligan antes mesmo de nascer, havia se tornado ateu e intelectual não comunista. Tudo isso fazia dele uma persona non grata.

Escrito de forma não-linear, O retorno do hooligan é uma obra sobre identidade, família, memória, história e o poder libertário da literatura. Com tradução direta, este livro é um desafio engenhoso, porém extremamente compensador para o leitor que se dispor a enfrentá-lo.